2.2.2024

Pesquisadores usam drones para proteger primata em risco de extinção

Estudos mostram como a ferramenta pode ser uma grande aliada da conservação ambiental

Escrito por
Luana Neves
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TEXTO originalmente publicadO em
Homem segurando drone nas mãos.
Foto:
Gustavo Fonseca/ Divulgação
A tecnologia mapeia as espécies por meio de um sensor termal.

Para encontrar o maior primata das Américas, é preciso muito mais do que apenas os olhos. Na busca pela vida selvagem, os drones se tornaram poderosas ferramentas para auxiliar na missão de monitoramento de animais em risco de extinção. 

A técnica, que começou a ser implementada em outros países a partir de 2010, se popularizou no Brasil e é aplicada para estudar uma das 25 espécies de primatas mais ameaçadas no planeta, o muriqui-do-norte. 

Durante as viagens pelas florestas, o drone mapeia a espécie através de uma câmera colorida e um sensor termal. Um dos pioneiros no uso da tecnologia foi o primatólogo Fabiano Melo, pesquisador do Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB) e professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV). 

A inspiração surgiu depois de ver um trabalho de mapeamento de coalas na Austrália com drones térmicos. Contudo, essa ferramenta ainda não existia no mercado. 

“A ideia surgiu em 2017. Naquela época, o drone já era usado para monitorar fauna. Então, o que eu trouxe para o Brasil foi o uso da câmera termal, que detecta o calor do corpo dos bichos”, explica o pesquisador.

Com cerca de 1.000 indivíduos espalhados pela Mata Atlântica, estes mamíferos estão distribuídos entre os estados de Minas Gerais, Espírito Santo e o sul da Bahia. Apesar de os primatas serem a prioridade do MIB, os drones também são utilizados para monitorar áreas afetadas por queimadas. 

Dados de 2020 da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) mostraram que atividades humanas ameaçam mais de 28% da população mundial, espécies e seus habitats.

Flexibilidade aérea

Com o drone, é possível alcançar áreas distantes que antes seriam inacessíveis. Comunidades tradicionais na Amazônia usam o equipamento para monitorar o território, observar a biodiversidade local e embasar denúncias de crimes ambientais, por exemplo.  

Assim como Melo, o biólogo Ismael Brack, pós-doutorando da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Grupo de Estudos em Vida Silvestre (GEVS), é outro exemplo de como essa tecnologia tem sido utilizada nas pesquisas. 

“Trabalhamos desde 2017 para monitorar a população do cervo-do-pantanal no Mato Grosso, na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Sesc Pantanal. Depois das queimadas de 2020, queremos entender qual foi o impacto para a espécie, principalmente porque esses fenômenos estão cada vez mais frequentes”, relatou.

Ainda assim, o avanço tecnológico conta com um fator limitante: a revisão manual de todas as imagens geradas. “O drone voa na linha pré-programada, registra vídeos ou fotos e, depois, é preciso revisar essas imagens. As amostragens geram grandes bancos de imagens e a maioria dos estudos, por enquanto, utilizam revisão manual, então temos que olhar todos os vídeos ou fotos que foram coletados”, explicou Brack. 

Os próximos passos para o projeto envolvem a implementação de um algoritmo treinado em ecologia animal, ou seja, que busque auxiliar na etapa de distinção dos animais e para contá-los de forma automática. 

“Em quatro anos de monitoramento do Pantanal, temos duzentas mil fotos. Em dois anos de revisão, avaliamos cerca de setenta mil fotos”, declarou Brack. “Quando temos amostragens grandes, pode levar até dois anos para sabermos quantos bichos tinham. Às vezes, dependendo do cenário, pode ser tarde demais”, admite.

Para Melo, a maior dificuldade está na duração da bateria e no alcance do sinal. “A conexão com o drone enfraquece em distâncias mais longas ou em condições mais adversas, como, por exemplo, em florestas e montanhas”, contou. 

Mesmo assim, essa tecnologia, que foi utilizada em guerras, tem se mostrado uma aliada do meio ambiente. Além de não utilizar combustível fóssil, ela permite que grandes quantidades de dados sejam coletadas em um curto espaço de tempo com gastos cada vez menores. 

No momento, Melo tem utilizado a ferramenta para estudar a preguiça-guará do sul, presente na Mata Atlântica brasileira. Esta é a primeira vez que uma preguiça é observada por um drone com câmera termal. 

As possibilidades dentro dessa área são diversas, mas ainda há muito espaço para evoluir. Para Brack, a tendência é que a coleta de dados se torne cada vez mais integrada, facilitando o mapeamento das populações de animais de forma precisa. 

“É uma solução integrada para termos informações cada vez mais em tempo real. Já vai ter um algoritmo processando, filtrando a informação, mandando informação para alguém olhar. Uma coisa mais integrada de todo o fluxo que acho que é o que a gente vai ver talvez nas nos próximos anos daqui para frente.”

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Luana Neves
Luana Neves
É estudante de jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estagiária no Nosso Impacto
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Luana Neves
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