2.2.2024

Pesquisadores da USP desenvolvem embalagem biodegradável, antimicrobiana e comestível

Feito a partir de resíduos agroindustriais, o material pode se decompor em 60 dias

Escrito por
Luana Neves
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TEXTO originalmente publicadO em
Praia com garrafas PET
Foto:
Freepik
A destinação inadequada do plástico faz com que ele pare nas praias e nos oceanos.

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um plástico biodegradável a partir de resíduos agroindustriais, como restos de uva. A diferença, neste caso, é que o material conta com benefícios próprios: ele é antioxidante, antimicrobiano e até comestível. 

“Em um teste recente, a gente verificou que em 60 dias, aproximadamente, ele já tinha se degradado totalmente”, afirma o doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Química da USP, Luís Fernando Zitei Baptista, um dos participantes do estudo. A pesquisa foi coordenada pela professora Délia Blácido, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto.

A busca pelos biodegradáveis é uma alternativa para os plásticos de uso único. Desde os anos 2000, a utilização desse material cresceu 130%, liberando 400 milhões de toneladas ao redor do mundo anualmente, segundo o estudo Plastic pollution: Pathways to net zero do banco Credit Suisse.

Mas todo esse lixo gerado não fica apenas no meio ambiente. Ao ser degradado, o plástico vira microplástico, que muitas vezes é ingerido por animais marinhos e, consequentemente, vai parar no corpo dos seres humanos. 

Um estudo holandês de 2022 mostrou que essas partículas foram detectadas no sangue humano, e a contaminação ocorre por meio do ar, da água ou por carnes de animais contaminados.

Além de poluir o meio ambiente, o plástico é um material que demora cerca de 500 anos para se degradar completamente, porém ainda é muito utilizado principalmente para embalar alimentos, por aumentar a durabilidade dos produtos.

O pesquisador explicou que o material biodegradável que está sendo desenvolvido no laboratório imitará algumas propriedades do plástico. “Ele vai ajudar a proteger mais os alimentos. O nosso laboratório é muito focado nessa parte de embalagem.”

Outra vantagem é a característica de ser comestível. Mas, o pesquisador alerta que o material ainda está em fase de testes. “Em teoria, sim. Todos os produtos que usamos nesses materiais são comestíveis”, disse Baptista.

Um mundo sem plástico de uso único

Ainda que a solução seja um respiro de alívio para o meio ambiente, o questionamento permanece: é possível viver sem esse material que está presente no cotidiano dos seres humanos há mais de 100 anos?

“Acredito que por enquanto os estudos estão bem recentes”, disse Baptista. “Talvez não substituir totalmente todos os plásticos, mas já é uma faísca para começar.”

No entanto, essa é uma meta difícil de ser alcançada. Isso porque eles estão estabelecidos em diferentes setores da indústria, como nos transportes, alimentos, moda e dentro da medicina. 

O baixo custo de produção comparado ao bioplástico ainda é um dos motivos de tanta atração pelo material, mas eles perdem o apelo quando se trata de danos ambientais, algo que fortaleceu a aderência do bioplástico.

“Ele tem ganhos ambientais, porque vai ser um plástico não poluente, não vai gerar microplástico e pode até servir de alimento para a natureza, tanto para animais aquáticos quanto para os terrestres”, esclareceu o pesquisador.

Os consumidores estão se mostrando cada vez mais preocupados com essa questão ambiental, refletindo na procura pelo “novo” material. A estimativa mundial é que a capacidade de produção do bioplástico triplique até 2026, segundo um relatório da European Bioplastic de 2021. 

Se o mercado optar pelas embalagens verdes, a escolha impactará fortemente na indústria de alimentos, a maior consumidora de plástico sintético. Nos últimos anos, muitas marcas já têm procurado alternativas de base biológica para as suas embalagens, a exemplo da Coca-Cola.

A empresa lançou em 2009 a PlantBottle, uma garrafa PET feita com 30% de cana-de-açúcar, e em 2021 montou um protótipo composto 100% com plástico vegetal, excluindo a tampa e o rótulo. A companhia se comprometeu a tornar suas embalagens 100% recicláveis, embora seja a mais poluidora do mundo atualmente. 

A concorrente Pepsico também aderiu à tendência junto à marca Danone.  Ambas se uniram num projeto em 2018 para tornar as suas garrafas de plástico 100% biodegradáveis a partir de material vegetal sustentável. Até agora, 87% das embalagens da empresa americana já são recicláveis, compostáveis ou biodegradáveis. 

As embalagens continuam sendo o maior campo de aplicação do bioplástico, tornando cada vez mais promissoras as pesquisas relacionadas aos materiais sustentáveis. Além disso, considerando a destinação final inadequada dos plásticos e a sua contribuição para as mudanças climáticas, mudar não é apenas necessário como também obrigatório para a manutenção da vida no planeta e para evitar a previsão de ter mais plásticos do que peixes nos oceanos até 2050.

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Luana Neves
Luana Neves
É estudante de jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estagiária no Nosso Impacto
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Luana Neves
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