14.8.2023

Peixes budiões desempenham função essencial para proteger recifes de corais, mostra estudo

Ameaçados pelo aquecimento global, recifes de corais são fontes de renda e de alimentos para milhares de pessoas

Escrito por
Samantha Prado
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TEXTO originalmente publicadO em
Imagem de um peixe azul escondido sob uma rocha.
Foto:
Divulgação/ Projeto Budiões
Peixes herbívoros, como os budiões, se alimentam de algas que crescem em corais.

Nas águas rasas e profundas dos oceanos, recifes de corais se formam ao longo de milhares de anos como ambientes marinhos sensíveis e ricos em biodiversidade – comparados à vida em terra, eles são tão vibrantes quanto as florestas tropicais. Ao mesmo tempo, esses ecossistemas estão entre os mais ameaçados pelo aquecimento global. Para protegê-los, um novo estudo mostrou que os peixes budiões, também conhecidos como peixes-papagaios, desempenham funções essenciais para os recifes de corais.

Publicada na revista científica Marine Biology, a principal conclusão da pesquisa é que, para garantir o bem-estar dos corais, é fundamental que as algas que crescem sobre eles sejam removidas. Os animais que fazem esse trabalho são os peixes herbívoros, como os budiões. O estudo foi realizado por pesquisadores do Projeto Budiões, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), do Instituto Nautilus de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade e do Centro Nacional Patagônico na Argentina.

Além da importância para a biodiversidade e da beleza natural, uma análise feita pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) mostrou que o Sistema Mesoamericano de Barreiras de Corais, que se estende pela costa de Honduras, Guatemala, Belize e México, e o Triângulo de Coral, região que abrange as águas de Indonésia, Malásia, Papua-Nova Guiné, Filipinas, Ilhas Salomão e Timor-Leste, geraram benefícios econômicos de 34,6 bilhões e 36,7 bilhões de dólares, respectivamente

Recifes de corais saudáveis movimentam o turismo – globalmente, estima-se que atividades de mergulho geram 9,6 bilhões de dólares por ano. Esses ecossistemas também são responsáveis por abrigar cerca de 25% da vida marinha, o que se traduz em fontes de alimento e de renda para milhares de pessoas em países em desenvolvimento e em cerca de 5,7 bilhões de dólares anuais associados à pesca. 

Porém, esses ambientes estão ameaçados. O aumento da temperatura dos oceanos e da absorção de gás carbônico (CO2) faz com que a água do mar fique mais ácida e cria as condições para intensificar a ocorrência do fenômeno conhecido como branqueamento de corais. “Se tivermos um aumento de 1,5ºC na média das águas, poderemos perder cerca de 70% dos recifes de corais do mundo. A mudança de 0,5ºC ou 1ºC nos oceanos tem um impacto muito maior do que na atmosfera”, alerta a doutora em ciências marinhas e gerente de Projetos da Fundação Grupo Boticário, Janaína Bumbeer.

Nesse contexto, quando os peixes budiões se alimentam de algas, eles abrem espaço para o crescimento dos corais. “Algas são competidoras superiores porque elas se desenvolvem muito rápido, deslocam os corais e não os deixam crescer”, explica o biólogo e coordenador do Projeto Budiões, Carlos Hackradt. “Os budiões conseguem remover uma quantidade significativa de algas e equilibrar essa relação”, disse. 

Segundo o pesquisador, esse processo aumenta a diversidade de organismos que vivem no fundo do mar, a comunidade bentônica, que tem como resposta secundária e positiva o aumento da diversidade dos peixes. “Um recife saudável tem alta diversidade e os budiões são uma peça-chave nessa engrenagem, é uma função ecológica”, diz ele. 

Contudo, os budiões também estão em risco por conta da pesca predatória. O Projeto Budiões, que tem apoio do Programa Petrobras Socioambiental, começou a identificar a diminuição das populações de peixes a partir das décadas de 80 e 90. “Isso aconteceu porque a pesca eliminou espécies de grande importância econômica, como os tubarões, garoupas, atum, entre outros. Então, os peixes herbívoros passaram a ser os alvos, que é o caso dos budiões”, explica Hackradt. 

Duas pessoas de camisas azuis e máscaras sentadas em um barco.
Pesquisadores analisam dados ao longo de décadas para identificar alterações nas espécies/ Foto: Divulgação/ Projeto Budiões

A diversidade dos budiões em espécie e tamanho 

Nas áreas recifais do Brasil, a variedade de peixes e herbívoros é menor em comparação aos recifes do Caribe e do Pacífico. Segundo Hackradt, isso se dá pela formação de barreiras biogeográficas, as condições naturais que limitam a dispersão dos organismos, como correntes e frentes oceânicas, temperatura, salinidade, profundidade, relevo, entre outros. “Há um nível de endemismo bastante alto. Das dez espécies que temos no Brasil, quatro ou cinco só existem aqui, como o Budião Azul e o Budião Bandeira”, explica Hackradt. 

Para ele, essa configuração natural torna a proteção dos budiões ainda mais urgente: caso a população brasileira desapareça, ela estará completamente extinta. Além de serem necessários nos recifes de corais, é crucial protegê-los para manter indivíduos de diferentes tamanhos, pois essa característica interfere nas funções exercidas pelos peixes. “Enquanto um budião-azul jovem consegue apenas cortar as partes filamentosas das algas, exemplares adultos vivem raspando e cavando no recife, removendo algas incrustadas em sua totalidade”, explica. 

Um mergulhador escrevendo em um pedaço de papel subaquático.
Milhares de pessoas em países em desenvolvimento dependem dos corais como fonte de alimento e de renda/ Foto: Divulgação/ Projeto Budiões

Proteção integrada

A vulnerabilidade dos recifes de corais é um problema ambiental e social que depende de medidas efetivas do poder público. “É uma questão que precisa ser trazida à luz do dia para as pessoas. Parece que estamos falando de coisas desconexas, sobre recifes, peixinhos… pode parecer que não existe uma relação direta com a sociedade, mas a verdade é que milhões de pessoas no mundo dependem dos ambientes recifais e das zonas costeiras. Esses locais são altamente sensíveis às mudanças climáticas e à sobrepesca”, diz. 

Hackradt destaca que da mesma forma que consumidores precisam repensar suas atitudes, o setor privado também deve fazer o mesmo – e o ponto principal é não incentivar atividades extrativistas focadas em espécies ameaçadas de extinção. “É uma premissa básica. A indústria, de forma geral, precisa repensar suas ações e adotar medidas de gestão interna que sejam mais sustentáveis. Não ações que sejam um greenwashing, mas que estejam realmente focadas em reduzir o impacto de seus sistemas produtivos”, diz ele. 

Na visão do pesquisador, um exemplo de contribuição das empresas com a preservação ambiental é o apoio financeiro. “O patrocínio permite que o projeto use todo seu conhecimento para ajudar o setor público na gestão dos recursos naturais através de fomentar, com base teórica e científica, políticas públicas que vão efetivamente ajudar na conservação”, explica. 

Para Bumbeer, uma das chaves para reduzir os impactos nos recifes é a redução da poluição marinha, o que inclui o saneamento básico. “É preciso fiscalizar o turismo para que a atividade seja sustentável e não sobrecarregue esses ambientes. Também não podemos esquecer de medidas de manejo da pesca para manter as espécies de peixes que estão ali, que fazem parte dos ecossistemas e ajudam na sua manutenção”, diz ela. 

Como parte de uma estratégia mais ampla, Bumbeer destaca a importância da criação de unidades de conservação marinhas, que mantêm as condições necessárias para a recuperação de recifes que sofrem impactos ambientais. “Precisamos de áreas onde não é possível ter atividades de pesca ou outro tipo de exploração. Nisso tudo, estamos falando da criação e da implementação de políticas públicas que olham para o ecossistema dos recifes de coral e os incluem em ações públicas municipais, estaduais e nacionais”. 

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Samantha Prado
Samantha Prado
Samantha é caiçara, jornalista e colaboradora freelancer.
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