16.9.2023

Enchentes no Sul evidenciam urgência de ações para a adaptação a eventos climáticos extremos

A junção dos efeitos de um El Niño a cidades mal preparadas para a mudança do clima resultou em consequências devastadoras para a população

Escrito por
Sabrina Brito
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TEXTO originalmente publicadO em
Imagem de políticos visitando deslizamento.
Foto:
Cadu Gomes/ VPR
Presidente da República em Exercício, Geraldo Alckmin visita áreas destruídas pelas chuvas no Rio Grande do Sul e anuncia medidas de ajuda/ Foto Cadu Gomes/VPR

Desde meados deste ano, a região sul do país, em especial o estado do Rio Grande do Sul, tem sofrido com intensas tempestades e enchentes que ocasionaram dezenas de mortes.

Se, por um lado, sabe-se que uma parte deste desastre se deve à mudança climática, por outro, nota-se que a região ainda tem muito a fazer para prevenir tragédias semelhantes às que testemunhou em 2023.

Existe um conjunto de fatores que levou à situação vivida recentemente pelos gaúchos. Um deles é o fenômeno El Niño, aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico que leva a um aumento dos aguaceiros gerados pelo clima.

Nas águas próximas à costa gaúcha, a temperatura chega a ser até 4ºC maior do que o normal. Outro ponto que deve ser levado em consideração é a formação de um ciclone que passou pelo Rio Grande do Sul no começo de setembro, levando ao registro de intensas rajadas de vento e ao aumento do nível dos rios.

Mas não é a primeira vez em que o Sul do país se vê obrigado a enfrentar duras condições climáticas. Há oito anos, por exemplo, as chuvas em território gaúcho foram tão poderosas que, em Porto Alegre, todas as comportas do Muro da Mauá tiveram de ser fechadas para evitar que o centro da cidade fosse completamente invadido pela água. Importante notar que temporais já são considerados o maior motivo de decretos de calamidade ou estado de emergência em municípios brasileiros.

Trata-se de uma espécie de novo normal trazido pela mudança climática e em relação ao qual a região precisará se adaptar, desde arquitetural até humanitariamente. Afinal, o caminho parece bastante irreversível: em 2019, o estudo Contribuição da Mudança Climática Antropogênica nas Chuvas Pesadas de Abril a Maio de 2017 sobre a Bacia do Rio Uruguai concluiu que os efeitos negativos gerados pela ação humana sobre o clima aumentaram em cinco vezes as chances de caírem chuvas extremas naquela região.

E, junto com o desastre antrópico, existe o desastre ambiental causado pelo homem: um levantamento da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural apontou que, até agora, as chuvas, enchentes e transbordamentos ocorridos no Rio Grande do Sul causaram a morte de quase 30 mil animais, sendo perdidas 35,5 toneladas de peixe e 370 caixas de abelhas. Além disso, 327,3 mil litros de leite não foram coletados. Mais de 10 mil propriedades e 50 municípios foram prejudicados pelas condições climáticas.

O grande problema é que parte considerável da população não está preparada para lidar com adversidades ambientais dessa escala. Segundo dados de 2017, estima-se que aproximadamente 79% dos gaúchos vivem em cidades sem qualquer tipo de planejamento no sentido de prevenir riscos de inundações, enxurradas e deslizamentos.

“Aprender a estar frente a frente com uma emergência climática passa pela prática. É ela que leva ao conhecimento completo, pois estamos lidando com algo novo, para o qual não temos receita”, opina a secretária executiva do Fundo Brasileiro de Educação Ambiental, Semíramis Biasoli.

“Precisamos colher informações, sobretudo com quem vem passando por essa situação, para construir conhecimento e conceber planos de contingência mais eficazes. É necessário haver diálogo, sair da inércia.”

É importante lembrar que o Rio Grande do Sul está longe de ser o único lugar do mundo que precisa passar por mudanças para lidar com as novas condições climáticas. No ano passado, por exemplo, centenas de pessoas foram mortas em uma única semana na África do Sul em decorrência de inundações-relâmpago e deslizamentos ocasionados por intensas chuvas.

Ainda, há locais como Veneza e Amsterdã que podem desaparecer por completo com o aumento do nível do mar. Por todo o mundo, há pessoas e países que precisam se adequar aos novos tempos no que diz respeito ao clima.

“A demanda por cidades resilientes é urgente; precisamos estruturar nossas cidades para que elas consigam se recuperar após eventos como os que estão acontecendo no Rio Grande do Sul”, aponta o engenheiro civil especialista em geotecnia e diretor comercial na MMF Projetos de Infraestrutura, Luciano Machado.

“Além disso, em breve precisaremos cuidar dessa mesma infraestrutura, mas dessa vez em relação às secas e queimadas na região Norte que também ocorrerão por conta dos efeitos do El Niño.”

Como resposta às tragédias no Sul do Brasil, o governo federal anunciou recentemente um repasse de R$ 741 milhões em recursos para as cidades atingidas por ciclones no estado gaúcho.

Ainda que seja substancial, o investimento não é suficiente para cobrir o prejuízo de R$ 1,3 bilhão gerado pelas tempestades, conforme apontam dados da Confederação Nacional de Municípios.

Entre outros planos da União, estão a liberação, pela Caixa, do saque emergencial do FGTS no valor de até R$6.220, a construção de 1,5 mil unidades habitacionais extras pelo Minha Casa, Minha Vida tendo como alvo os cidadãos atingidos pelas enchentes e a criação de um comitê interministerial para acompanhar os municípios afetados.

Situações de calamidade como esta também atraem ações que visam auxiliar os prejudicados. Um bom exemplo é a cozinha solidária do MST, que já entregou 10 mil marmitas no Rio Grande do Sul.

O Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Rio Grande do Sul também está mobilizando a criação de mais cozinhas desse tipo na área. Doações de cestas de alimentos e produtos de limpeza também estão sendo preparadas.

Para Machado, parte significativa das ações a serem tomadas são de incumbência do setor público. “As áreas de risco sujeitas a inundação e deslizamentos de terra são todas mapeadas e amplamente conhecidas. O governo precisa executar as políticas públicas para que seja possível suportar os efeitos dos eventos climáticos extremos”, afirma.

Para Semíramis, faz parte do dever do cidadão pressionar o poder público para criar políticas capazes de mitigar os desastres climáticos. “Devemos nos engajar no assunto, ir atrás, olhar a cidade como um espaço de todos e entender como cada um pode fazer a sua parte”, diz.

Quer caibam os cuidados com essa situação ao governo, quer sejam encargo da população, o que se pode afirmar com certeza é que regiões como o Rio Grande do Sul terão de se adaptar à nova realidade climática que o planeta – e o próprio homem – impôs.

Sem isso, a tendência é vermos cada vez mais mortes, destruição e tragédias espalhadas pelo mundo, as quais serão provocadas por alterações climáticas cada vez mais intensas e potencialmente danosas.

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Sabrina Brito
Sabrina Brito
Jornalista formada pela ECA-USP e graduanda em Direito pela PUC-SP
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