16.10.2023

Dentro e fora da escola, iniciativas de educação ambiental preparam públicos de todas as idades para a mudança do clima

Instituições de ensino têm um papel importante na disseminação de informações sobre como lidar com o planeta em transformação

Escrito por
Sabrina Brito
fotografia
TEXTO originalmente publicadO em
Imagem da vista aérea de um rio e nuvens.
Foto:
Jonne Roriz/ Nosso Impacto
Conhecimento sobre os ciclos da Terra é essencial para entender o aquecimento global.

No dia 26 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma publicação, na rede social X, em que ressalta a importância da educação ambiental. “Nós precisamos colocar no currículo educacional brasileiro a educação para o clima”, dizia o post. “É importante que, através da escola, nossas crianças e adolescentes possam ensinar aos pais sobre meio ambiente, reciclagem, para não serem analfabetos climáticos.”

Uma pesquisa realizada no Instituto de Biociências da USP destacou a influência que o método educacional pode ter sobre a conscientização e prevenção de desastres naturais resultantes da mudança climática. O trabalho, encabeçado por Patrícia Matsuo, se baseou em dados obtidos por meio do cadastramento de escolas, universidades e Defesas Civis espalhados por 118 municípios brasileiros.

As práticas analisadas por Matsuo abrangem desde a realização de debates em sala de aula até a construção de pluviômetros a partir de garrafas PET. Segundo a pesquisadora, essas formas de trabalho são modos de construir conhecimento acerca da redução e prevenção de incidentes.

“À medida que enfrentamos eventos climáticos adversos, que exigem a nossa ação, as pessoas ficam mais interessadas no assunto. A educação ambiental entra aí, ensinando a lidar e se adaptar a esse novo normal”, indica a educadora ambiental do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Andrea Pupo Bartazini.

Diversas associações e grupos focam justamente na importância da educação ambiental. Por exemplo, a Associação Brasileira para Educação Ambiental em Áreas de Manguezal tem por objetivo propor e deliberar sobre políticas públicas relacionadas à sustentabilidade dos ecossistemas dos manguezais brasileiros, além de executar práticas, programas e projetos de educação ambiental voltados para a proteção e a manutenção das comunidades tradicionais estuarinas do Brasil, segundo o estatuto da organização.

Já a Associação de Defesa e Educação Ambiental busca apoiar a criação e o gerenciamento de unidades de conservação na Mata Atlântica por meio da promoção do estudo científico e da sensibilização da população acerca de questões ligadas ao meio ambiente.

Por fim, a Serra Acima Associação de Cultura e Educação Ambiental é uma Organização Social de Interesse Público que tem como meta o incentivo da geração de conhecimentos e práticas sustentáveis e justas por meio do emprego de conceitos e ferramentas da agroecologia, desenvolvendo projetos voltados à conservação ambiental.

Em diferentes iniciativas, a ideia é que o ensino sobre os riscos e a prevenção de incidentes que ocorrem em decorrência da mudança climática possa ajudar a lidar com eles, ou, principalmente, a evitá-los. Não à toa, muitos desses grupos advogam pela inclusão de disciplinas de educação ambiental no currículo escolar, como sugeriu o presidente brasileiro. O cenário, porém, ainda está longe de ser ideal.

“Dentro das escolas, nem sempre acontecem as capacitações necessárias para a abordagem da educação ambiental em diferentes disciplinas, o que acaba sendo direcionado para os professores de ciências, por exemplo. Muitas vezes, a falta de estrutura no projeto pedagógico também dificulta a construção do tema”, opinam Gabriela D’Amaral e Fernando Martins, coordenadores de projetos de educação do Instituto Akatu, organização sem fins lucrativos especializada em ações para sensibilização, mobilização e engajamento da sociedade para o consumo consciente.

“Dentro ou fora da escola, é preciso considerar o contexto em que se está inserido. Antes de abordar e desenvolver o tema, questionamentos como: ‘Qual é o nosso contexto? O que queremos solucionar? O que podemos fazer para o meio ambiente? Quem são os participantes e como cada um pode colaborar?’, podem ser pontos iniciais para a resolução de problemas, junto com a necessidade de objetivos bem definidos, o que nem sempre acontece.”

Os especialistas pontuam ainda que, apesar da instituição da Política Nacional de Educação Ambiental há mais de 20 anos, é preciso que os estados e municípios criem e implementem suas próprias políticas de educação ambiental, alinhadas com a política nacional, para que o tema possa de fato fazer parte do currículo escolar. Assim, serão formados cidadãos mais conscientes sobre os impactos de suas ações em relação ao meio ambiente.

Para o instituto Akatu, algumas formas de aproximar a população da educação ambiental são a criação de hortas comunitárias e programas de reciclagem, ações que podem proporcionar uma troca de conhecimento e um consequente fortalecimento da causa com base na conduta do cidadão comum.

“A educação ambiental no Brasil ainda é tratada como superficial e complementar. Mas a situação em que estamos exige que ela seja assunto em todos os segmentos sociais. Todos precisam ser educados ambientalmente, sem exceções”, complementa Bartazini, educadora do IPÊ. “É preciso mudar a situação. Só fortalecendo a educação como um todo é que alcançaremos o nosso objetivo.”

Outro estímulo para promover a educação ambiental e climática para a população desde a infância até a vida adulta é a importância dessa experiência no sentido da aquisição das chamadas “green skills”, ou habilidades verdes. Trata-se do conjunto de conhecimentos essenciais à execução sustentável e ambientalmente responsável do trabalho – habilidade cada vez mais requerida pelo mercado.

Quanto maior for o conhecimento sobre meio ambiente, clima, biodiversidade, entre outros elementos da vida natural no planeta, maior será a afinidade com esses assuntos no ambiente corporativo. De acordo com um estudo da empresa ManpowerGroup, 34% das organizações já começaram a entender e definir os requisitos para as funções que demandam as green skills. Atualmente, o Brasil responde por 10% de todos os empregos verdes do mundo.

Seja ambiental ou não, a educação transforma as vidas das pessoas. Em qualquer contexto, o acesso à escola, à universidade, a cursos de especialização, entre tantas outras oportunidades de aprendizado, permite que novos caminhos se desdobrem e se multipliquem.

Dentro do recorte da educação ambiental, cada pessoa ganha a chance de pensar em formas diferentes de agir e contribuir para o planeta, de mudar suas atitudes e hábitos para se tornar mais sustentável. Promover o ensino sobre o funcionamento e boas práticas ambientais em escolas e universidades, além de dentro de casa, é investir na formação de cidadãos dispostos a reverter o cenário de degradação ambiental e de atuar para proteger a natureza.

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Sabrina Brito
Sabrina Brito
Jornalista formada pela ECA-USP e graduanda em Direito pela PUC-SP
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