21.11.2023

Poluição da água: busca por recursos hídricos evidencia desigualdades globais

Um terço das crianças está exposta à falta de água, recurso cada vez mais escasso

Escrito por
Sabrina Brito
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TEXTO originalmente publicadO em
Fotografia aérea de corpo d'água
Foto:
Wynand Uys/ Unsplash

Até o final do século, a poluição da água gerará uma crise de abastecimento hídrico. A informação é de um estudo publicado no periódico científico Nature Water, segundo o qual a poluição representa uma espécie de bomba-relógio a nível mundial. 

De acordo com a pesquisa, aproximadamente 5,5 bilhões de pessoas poderão estar expostas à água poluída até o ano de 2100. Os principais culpados são a atividade antropogênica, o grande aumento de poluentes no ar e as mudanças nos níveis da água, estimuladas tanto pela mudança climática quanto pelo desenvolvimento humano.

Ainda segundo o levantamento, países da América do Sul, entre outras economias emergentes, apresentam uma queda na qualidade da água, possibilitando crises de abastecimento nessas áreas. Já países ricos apresentam índices de poluição diminuídos, uma vez que possuem melhor tratamento hídrico. 

Atualmente, alguns dos principais poluentes da água incluem bactérias, fertilizantes, pesticidas, plásticos e resíduos fecais. A falta de água, tanto futura quanto atual, é uma grande preocupação para a humanidade. 

Segundo a Unicef, uma em cada três crianças no planeta já está exposta à grave escassez de água. Apenas no Brasil, são 1,1 milhão de crianças e adolescentes vivendo em risco de falta de água. A inviabilidade do uso dos recursos hídricos que restam, portanto, é um assunto de extrema importância.

A poluição da água é um problema ambiental caracterizado pela introdução de elementos estranhos a um corpo hídrico que provocam alterações em suas características físicas e químicas, tornando-a imprópria para o uso. 

A principal causa de poluição de mares, rios, lagos e outros corpos é a ação humana. Alguns exemplos disso são o desmatamento (que provoca erosões cujos detritos podem ser levados até corpos d’água por meio da chuva), a utilização de pesticidas e agrotóxicos (que podem chegar até o lençol freático e contagiá-lo) e o descarte irregular de lixo (que pode infectar águas subterrâneas via liberação tóxica de chorume).

Entre os riscos ocasionados pela poluição da água estão a contaminação do lençol freático e a proliferação de doenças de veiculação hídrica (como hepatite e leptospirose).

Evitar a poluição da água, a nível individual, é bastante simples. Algumas das medidas que podem ser tomadas incluem a limitação do uso de plásticos de uso único, que frequentemente acabam flutuando em corpos hídricos; a proibição do uso de herbicidas e pesticidas; a tomada de cuidados com solos e vegetações, para evitar a erosão; entre outros.

Percebe-se, assim, que, embora haja países onde a preocupação com a falta de recursos hídricos não seja tão urgente, trata-se de um problema global. Especificamente no Brasil, somente 6,5% dos rios possuem boa qualidade de água, de acordo com um relatório da Fundação SOS Mata Atlântica. O documento informa ainda que grande parte dos cursos de água do país está lentamente perdendo a capacidade de abastecer a população, o que é um péssimo sinal. 

Em um cenário onde a água potável está acabando e a poluição é crescente, gera-se uma situação de intensa preocupação para todo o mundo. Há quem especule, por exemplo, que a próxima guerra mundial será travada por causa da água, já que a busca por ela desperta pequenos embates em determinados locais. Resta, por ora, esperar que cada um faça a sua parte e que governos implementem políticas públicas capazes de zelar pela água potável e investir no combate à poluição.

Saneamento básico

A falta de saneamento básico representa uma questão de difícil solução para o Brasil. Entre 2008 e 2019, as doenças ligadas ao saneamento ambiental inadequado provocaram cerca de 0,9% das mortes ocorridas no país, de acordo com o Atlas de Saneamento: Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário, do IBGE. 

Além disso, aproximadamente 35 milhões de brasileiros vivem sem água tratada e 100 milhões não têm acesso à coleta de esgoto. No Brasil, de acordo com o Atlas, as regiões que enfrentam as maiores dificuldades são o Centro-Oeste e o Nordeste.

O saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços e infraestruturas essenciais à salubridade e ao desenvolvimento socioeconômico. São parte do saneamento básico o abastecimento de água, o esgotamento sanitário, a limpeza e drenagem urbanas, o manejo de resíduos sólidos, entre outros.

Em 2020, foi editado o Novo Marco Legal do Saneamento, responsável por alterar a lei anterior, datada de 2000. Entre outras disposições, o documento criou a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e estabeleceu a meta de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033, com a possibilidade de estender o prazo até 2040. 

Contudo, o Novo Marco Legal do Saneamento perdeu a oportunidade de incorporar a ideia de que água potável e esgotamento sanitário são direitos humanos, que seria uma forma de regulamentar em nível nacional a resolução da ONU sobre água e esgotamento, da qual o Brasil é signatário.

Para além da condição degradante que se estabelece nas vidas de quem vive sem esgoto ou água corrente, há ainda o problema de transmissão de doenças, uma vez que muitos vírus, bactérias, vermes e parasitas costumam viver nesses ambientes, que frequentemente não são higiênicos. 

Não à toa, entre 2008 e 2019, foram notificadas quase 5 milhões de internações no SUS ligadas a doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado. As causas de morte mais comuns foram doença de Chagas, diarreia e disenteria, responsáveis por mais de 81% das mortes no período. 

Além disso, uma das mais frequentes causas de óbitos nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, foram o conjunto de dengue, zika e chikungunya. No norte, as leishmanioses figuram em primeiro lugar. No nordeste, foi a esquistossomose, e, no sul, a leptospirose.

Existem diversas formas de melhorar as condições do saneamento básico. Alguns exemplos são investir na correta coleta de esgoto, incentivar a união de esforços entre empresas privadas e iniciativas públicas e motivar a preservação de rios e mananciais. 

No entanto, percebe-se que é imprescindível que haja apoio e investimentos por parte do governo, uma vez que melhorias na infraestrutura – as quais envolvem grandes planejamentos e gastos de recursos financeiros – são essenciais para a redução de danos nessa situação. 

Somente assim, com a junção de esforços públicos e individuais, é que será possível melhorar a situação, diminuir o número de mortes em virtude da falta de saneamento e impedir que milhões de pessoas vivam sob risco de contrair doenças.

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Sabrina Brito
Sabrina Brito
Jornalista formada pela ECA-USP e graduanda em Direito pela PUC-SP
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