30.11.2022

Comida azul: as oportunidades e os desafios para o cultivo de alimentos no oceano

População global crescente coloca pressão sobre os sistemas alimentares e estimula expansão de fazendas marinhas

Escrito por
Jennifer Ann Thomas
fotografia
Jonne Roriz
TEXTO originalmente publicadO em
Imagem de vista aérea de barcos em um vasto rio.
Foto:
Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Em uma baía abrigada de Ilha Grande, em Angra dos Reis, área reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO e que mantém remanescentes protegidos de Mata Atlântica, a paisagem de águas transparentes do Atlântico Sul se mistura com a vista para o contorno de montanhas. Na linha do horizonte, círculos instalados no nível do mar indicam a presença de tanques submersos e a aposta em uma atividade que tem potencial para aumentar a diversidade de fontes de proteínas, gerar empregos e renda e ser uma alternativa de produção de alimentos aliada ao combate às mudanças do clima – se, é claro, for realizada de forma sustentável.

Há um desafio iminente para as lideranças globais: alimentar as populações do presente e do futuro. Em 2022, o planeta alcançou a marca de 8 bilhões de habitantes – até 2050, a expectativa é que sejam quase 10 bilhões de pessoas na Terra. Em 2021, cerca de 828 milhões de pessoas passaram fome, um aumento de 46 milhões de indivíduos em comparação a 2020. Ao mesmo tempo, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), até 40% da área terrestre do planeta está degradada. No Brasil, o quarto maior produtor de grãos e o maior exportador de carne bovina no mundo, 130 milhões de hectares de pastagens estão degradados. De acordo com o Banco Mundial, o desafio da segurança alimentar se tornará cada vez mais difícil: será necessário produzir cerca de 70% a mais de alimentos até 2050 para alimentar mais de 9 bilhões de indivíduos.

Em Ilha Grande, o empresário Carlos Kazuo lidera a Maricultura Costa Verde, empreendimento responsável pelos tanques onde o peixe bijupirá, nativo do Brasil, é produzido. Na mesma estrutura em que ele gerencia a Pousada Nautilus, especializada em turismo de mergulho, sete reservatórios de 1.200 metros cúbicos têm capacidade para produzir oito toneladas de peixe em cada. No período de um ano e meio, a produção gira em torno de 50 toneladas de peixe. "Temos um enorme potencial para a maricultura, mas, em comparação com países como a China e o Chile, estamos atrasados. Ao mesmo tempo, existe uma necessidade global de aumento de produção de proteínas de qualidade", afirmou Kazuo. 

Um homem em pé em um deque de madeira com vista para a água.
O empresário Carlos Kazuo e a produção de bijupirá em Ilha Grande, no Rio de Janeiro

No Brasil, apesar dos quase 8.000 quilômetros de extensão de litoral, a maricultura – o cultivo de recursos marinhos no oceano, como peixes, moluscos e algas – está concentrada, majoritariamente, em Santa Catarina, que responde por 95% da produção nacional. O Nordeste se destaca pela carcinicultura, a produção de camarão: em 2020, o cultivo atingiu a marca de 63,2 mil toneladas criadas em cativeiro. Há um incipiente mercado de algas no país, com experiências no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Santa Catarina, além de iniciativas isoladas para a produção de peixe em tanques-rede no mar.

OCEANO DE OPORTUNIDADES

Até 2050, a demanda pela "comida azul" deve dobrar. Segundo dados da agência da ONU para Alimentação e Agricultura, a FAO, o consumo global de alimentos aquáticos, com exceção das algas, aumentou a uma taxa média anual de 3% desde 1961, enquanto a taxa de crescimento populacional foi de 1,6%. De acordo com Kazuo, da Maricultura Costa Verde, há demanda para a expansão do cultivo de peixes. "A cada ano, aumentamos um pouco a nossa produção. Com isso, nosso crescimento é orgânico, sem desperdícios, e fazemos ajustes para reduzir custos e melhorar a produtividade", disse ele. 

Para o professor de Ecologia e Oceanografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Paulo Horta, é importante lembrar que cada região do país tem uma vocação comercial de acordo com as suas características naturais. Ao olhar para as vulnerabilidades e interdependências desses ambientes, é possível selecionar as melhores iniciativas. "A maricultura é uma grande oportunidade econômica. Temos super alimentos no oceano, como as algas, que são a vedete do momento. Algumas espécies têm mais proteína do que carne animal", disse Horta.

Uma grande quantidade de redes na água.
Cultivo de algas no mar tem potencial para abastecer mercado de fertilizantes agrícolas

As algas entraram no radar do mercado brasileiro também por causa dos impactos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que evidenciou a dependência do abastecimento de fertilizantes para o setor agrícola – cerca de 85% dos fertilizantes usados no Brasil em 2021 foram importados. Pioneiro na introdução da alga Kappaphycus alvarezii no Brasil, o biólogo marinho e CEO da Seaweed Consulting, Miguel Sepúlveda, mantém uma área de cultivo de algas em Ilha Grande, no Rio de Janeiro. 

Versáteis, as algas são usadas no setor de alimentos, em cosméticos e como biofertilizantes. "Por ser um país agrícola, o Brasil ainda não descobriu o potencial que tem no mar para as macroalgas. O grande interesse ainda vai ser despertado, da mesma maneira como já existe em outros países", afirmou. De acordo com a FAO, o cultivo de algas representa cerca de 30% da produção da aquacultura mundial. 

Um homem de roupa de mergulho está em pé na água com algas marinhas.
O biólogo e maricultor Miguel Sepúlveda foi pioneiro da atividade no Brasil

Na corrida contra o tempo para encontrar formas de remover CO2 da atmosfera, o cultivo de algas entrou na lista de atividades com potencial para o mercado de créditos de carbono. Estimativas indicam que os ecossistemas com plantas marinhas, como manguezais e macroalgas, podem capturar até 20 vezes mais carbono por hectare do que as florestas terrestres. O cenário é o pano de fundo para o chamado carbono azul, o mercado voltado especificamente para o desenvolvimento de oportunidades de sequestro de carbono em ecossistemas marinhos.  

O entusiasmo pode reverberar na criação de empregos. Em 2020, 58,5 milhões de pessoas estavam empregadas no setor primário de pesca e aquicultura. Nos empregos diretos, aproximadamente 21% eram mulheres, taxa que chega a 50% quando se considera os empregos de tempo integral em toda a cadeia de valor aquático, incluindo atividades pós-colheita. Ao incluir os dependentes de cada família, estima-se que cerca de 600 milhões de pessoas dependem do setor pesqueiro e da aquacultura para sobreviver. 

Todavia, 35% dos estoques pesqueiros estão impactados pela sobrepesca, de acordo com dados da FAO. No caso do Brasil, o último boletim com dados sobre a pesca nacional foi publicado em 2011. Para o pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Felipe Matarazzo Suplicy, a maricultura é uma forma de oferecer outras oportunidades de trabalho para os pescadores que não têm mais os mesmos ganhos com a pesca. 

Dois homens preparam peixe em um barco.
Expansão da atividade cria empregos e gera renda para as comunidades tradicionais

"Muitas pessoas que viviam da pesca viram os seus ganhos reduzirem ao longo dos anos. Na medida em que surge uma alternativa em que eles deixam de ser extrativistas para se tornarem plantadores e fazendeiros do mar, isso muda toda a perspectiva", disse Suplicy. Em Ilha Grande, Kazuo acredita que a expansão de fazendas marinhas terá condições de manter a cultura local. "Com a geração de emprego e renda, os nativos da ilha não vão precisar buscar oportunidades no continente e o modo de viver do caiçara será preservado", disse.    

A produção de peixes em tanques tem potencial para ser uma estratégia de criação de um sistema aquático saudável e equilibrado. Contudo, o oceanógrafo e diretor científico da Oceana Brasil, Martin Dias, alerta para o fato de que não há um planejamento estruturado neste sentido. "Falta uma orientação clara para desenvolver a piscicultura e reduzir a pressão sobre determinado tipo de estoque pesqueiro, por exemplo. O setor empresarial tem maior controle sobre a sua produção, com a medida exata de introdução de alevinos e uso de ração, enquanto a pesca não tem essa capacidade. O que vemos não é uma redução planejada, mas sim a tendência de avanço da aquicultura que vai se sobrepor à pesca como mercado produtor", afirmou. 

ÁGUAS PROFUNDAS

A crise do clima foi desencadeada ao longo da industrialização das economias pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, que liberam gases de efeito estufa na atmosfera. Em 1922, a população global era de 2 bilhões de pessoas – o número quadruplicou no último século. Consequentemente, a produção de comida acompanhou o ritmo. Atualmente, a agricultura é responsável por cerca de 30% das emissões globais.

Um cardume de peixes nadando no oceano.
O bijupirá, espécie nativa do Brasil, é cultivado em tanques em Ilha Grande

Enquanto há um esforço generalizado para recuperar áreas degradadas, os olhos se voltam para o oceano, que cobre 71% da superfície do globo. Contudo, da mesma maneira como a agropecuária se tornou vetor de destruição para as florestas, a maricultura pode comprometer o bioma caso ela não seja estruturada de maneira que respeite o meio ambiente. Para a engenheira de pesca, doutora em ecologia marinha e diretora do Instituto Talanoa, Ana Paula Prates, parte dos exemplos existentes de produção marinha não são bons casos a serem replicados.

"A criação de camarões, por exemplo, geralmente é feita em cima dos manguezais, prática que degrada o habitat que é um dos maiores responsáveis por ser berçário dos recursos naturais pesqueiros", disse Prates. Além disso, a espécie exótica vannamei, cultivada no Nordeste, vazou para o ambiente natural e hoje pode ser pescado fora de tanques. "Para a maricultura ser sustentável, ela deveria ser feita com espécies nativas. Precisamos de pacotes tecnológicos para que a atividade seja feita do jeito mais natural possível", disse.

São vários os motivos de preocupação com o cenário de expansão da maricultura no Brasil. No caso de peixes carnívoros, eles são alimentados com peixes menores, pescados apenas para a alimentação de espécies com valor comercial – segundo a FAO, 11% da produção total de animais aquáticos, o equivalente a 20 milhões de toneladas, foram destinadas a usos não alimentares, como ração e óleo de peixe. Em larga escala e com espécies introduzidas, há uso de antibióticos, que podem contaminar o ambiente marinho e gerar prejuízos para a saúde humana. Quando há introdução de espécies exóticas, o risco é incalculável: elas podem se espalhar, se tornar predadoras e desequilibrar o ecossistema. 

De acordo com a professora do departamento de zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Rosana Rocha, os locais onde os cultivos se instalam, como a região de fazendas marinhas em Florianópolis, em Santa Catarina, oferecem muito substrato e se tornam pontos de possível estabelecimento de espécies exóticas. "Essas espécies vêm por embarcações ao se fixarem nos cascos de navios. Os locais com produção marinha se tornam atrativos para aquelas que foram transportadas até ali e que podem se firmar e se tornar invasoras", explicou. 

Segundo Dias, da Oceana Brasil, é preciso avaliar a situação com equilíbrio. "É fato que a maricultura tem potencial para crescer e se tornar uma opção de proteína animal. Mas ao olharmos a pegada ambiental da atividade como um todo, ela não é a bala de prata, nem a solução para os sistemas alimentares, especialmente se a produção for de peixes grandes e carnívoros".

MAR REVOLTO

Nos últimos 40 anos, a frequência de ondas de calor no mar dobrou e os fenômenos se tornaram mais intensos. O oceano absorveu mais de 90% do excesso de calor do sistema climático, e entre 20% e 30% das emissões de CO2 geradas pela ação humana desde a década de 80, o que causou a acidificação do mar. O aumento da temperatura reduz a interação entre as camadas de água e, consequentemente, o fornecimento de oxigênio e nutrientes para a vida marinha. Desde 1950, as zonas mortas nos oceanos, onde o índice de oxigênio chega a zero, quadruplicaram em tamanho.

Um carro dirige por uma estrada perto de um lago e montanhas.
O desenvolvimento sadio da economia do mar depende de ecossistemas saudáveis e conservados

Para que as atividades econômicas evoluam no oceano de forma saudável e sustentável, é essencial que o ambiente marinho tenha as condições adequadas para abrigá-las. De acordo com Horta, da UFSC, a poluição dos sistemas costeiros é motivo de preocupação, inclusive pelo uso na agricultura de agrotóxicos banidos na Europa e que chegam até o mar. "A maricultura é dependente de sistemas saudáveis. Se há poluição com produtos químicos, vazamento de petróleo, falta de saneamento básico, entre outras ameaças, limitaremos a nossa vocação intrínseca. Esses problemas comprometem a biodiversidade e, literalmente, estrangulam os sistemas costeiros", afirmou. 

Ao mesmo tempo, para o empresário que mantém um empreendimento no mar, é essencial fazer o controle de qualidade da água. Segundo Rocha, da UFPR, as atividades oceânicas são interessantes do ponto de vista ambiental. "Se tem cultivo, existe a obrigação de manter a água com boa qualidade. O empresário precisa desse olhar para manter a qualidade da água sob controle para que o produto possa ser comercializado com bom valor. Eles acabam sendo uma questão positiva para a manutenção do bem-estar ambiental", disse. 

PLANETA AZUL

Entre os tipos possíveis de cultivo para a produção de proteína animal, a criação de ostras e mexilhões desponta como a que tem menor impacto ambiental negativo. Animais filtradores, os moluscos prestam importantes serviços ecossistêmicos pela habilidade de despoluir ambientes contaminados. Em média, uma ostra adulta é capaz de filtrar 200 litros de água por dia. No Brasil, 95% da maricultura corresponde a esse tipo de produção em Santa Catarina. 

Animais filtradores, o cultivo de bivalves contribui com serviços ecossistêmicos

Em Florianópolis, mais de 700 produtores dependem da atividade, mercado que atinge cerca de 12.000 toneladas de mexilhão e 2.000 toneladas de ostra por ano. No caso do mexilhão, não há necessidade de uso de sementes. Para o cultivo de ostras, o êxito de Santa Catarina é resultado de um projeto bem-sucedido com a UFSC e a Epagri, pois as sementes que abastecem as fazendas marinhas saem do laboratório da universidade. Ambas as espécies dispensam a necessidade de ração: por serem filtradores, elas se alimentam do fitoplâncton que está no mar.

A fazenda marinha Paraíso das Ostras, no sul da ilha de Florianópolis, é uma das principais produtoras da região. De acordo com o empresário e dono da Paraíso das Ostras, Vinícius Ramos, para que o potencial da maricultura no Brasil possa se expressar plenamente, é preciso adotar práticas de cultivo sustentáveis. "A principal importância dos moluscos é a ecológica. Se desenvolvida de forma responsável, a maricultura contribui para o beneficiamento dos ecossistemas marinhos, além do seu enorme potencial para a promoção do desenvolvimento econômico", explicou.

Segundo o professor Horta, da UFSC, desde o início dos anos 2000 existe o campo da aquacultura multitrófica – a ideia é parecida com a de uma agrofloresta, só que no mar. Agora, o conceito começa a ganhar força no Brasil. "Em uma mesma região, cultiva-se peixes, moluscos e algas e, dessa forma, o sistema como um todo passa a ser carbono negativo. Com isso, as produções podem restaurar funções de ambientes que hoje são considerados zonas mortas", disse. 

Assim como o oceano, a complexidade dos sistemas alimentares exige a estruturação de diferentes camadas. O brilho de águas claras da superfície pode camuflar questões essenciais à manutenção da vida em níveis mais profundos e imperceptíveis a olho nu. Com demandas cada vez maiores por recursos naturais, o olhar integrado para os elementos do mundo natural permitirá que a existência na Terra seja cada vez mais eficiente, saudável e sustentável.

Esta reportagem foi produzida com apoio do edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

A viagem entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina foi feita com o Volvo C40 Recharge, modelo 100% elétrico. O apoio permitiu evitar as emissões de gases de efeito estufa que seriam geradas pelo uso de um veículo a combustão. As emissões restantes, decorrentes do uso de transportes náuticos, foram neutralizadas com o apoio da Biofílica Ambipar Environment.

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Jennifer Ann Thomas
Jennifer Ann Thomas
Jornalista especializada em meio ambiente e sustentabilidade e cofundadora do Nosso Impacto
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Jonne Roriz
Fotógrafo com mais de vinte anos no mercado editorial e publicitário e cofundador do Nosso Impacto
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