24.10.2023

Bioeconomia do Cerrado aposta na castanha de baru para crescer no mercado externo

Castanha entrou na mira do mercado internacional e mescla geração de renda, conservação do bioma e fortalecimento de povos e comunidades tradicionais

Escrito por
Samantha Prado
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TEXTO originalmente publicadO em
Imagem de caminho de terra com árvores aos lados.
Foto:
Augusto Miranda/MTur
Paisagem do Parque dos Pirineus em Pirenópolis, em Goiás.

Uma castanha pode ser aliada na luta pela preservação do Cerrado, o bioma mais ameaçado do país. Essa é a expectativa com o fruto que começa a ganhar o mercado internacional: a castanha de baru, um alimento nutritivo e proveniente do baruzeiro, árvore do Cerrado que está ameaçada de extinção.

O bioma já perdeu aproximadamente 50% de sua área de vegetação nativa, o que gera impactos não só para a biodiversidade, mas também para a produção de água e regulação do clima, dentre outros serviços ecossistêmicos que ele presta ao país.

Uma forma de proteger o bioma é agregar valor com o interesse do setor privado. Ricardo Pavan é fundador da Labraflora, uma das empresas responsáveis pela comercialização da semente de baru no exterior, e conta que, em 2016, deu início ao processo de levar o alimento para o mercado norte-americano. 

“Apresentamos a semente na feira Expo West, que acontece na Califórnia, e o baru começou a ser conhecido como um superalimento brasileiro, com um potencial similar ao do açaí e que também vem de uma cadeia sustentável”, explica ele. 

O açaí é considerado um exemplo bem-sucedido de produto capaz de gerar renda para os povos tradicionais que vivem na floresta. O fruto amazônico é fonte de sustento para ribeirinhos, gerando 25.000 empregos e 40 milhões em receita anual. 

Segundo a Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados, de 2011 a 2020 a exportação da fruta teve um crescimento astronômico de 14.380%, saltando de 41 toneladas para quase 6.000.

Nesse sentido, a castanha de baru e o açaí possuem certa similaridade, como explica a analista de conservação do WWF-Brasil, Bianca Nakamoto. “A castanha é coletada como parte da cultura e do conhecimento de comunidades e povos tradicionais que habitam o Cerrado. O baru é aproveitado de forma sustentável pelas comunidades e por novos negócios, que geralmente são comunitários”, disse. 

Pavan esclarece que a cadeia de valor do baru começa, essencialmente, na coleta pelos extrativistas. “A gente, como empresa, participa ajudando a desenvolver essa cadeia. Fomentamos a coleta, ajudamos no processamento e adequamos o produto para exportação”, conta. 

Atualmente, quase metade da produção do baru é vendida para o exterior, segundo artigo publicado na revista de pesquisas especializada em mercados, Fact.MR. 25% dessa produção vai para Europa e outros 22% para os Estados Unidos. 

Apesar dos avanços, Pavan conta que a adesão à castanha não foi imediata. No país, o mercado ainda é considerado de nicho, mas ganhou um público fiel. A analista da WWF-Brasil concorda com o empresário: “definitivamente, o baru tem muito potencial para ser um produto de destaque. As castanhas do Cerrado ainda não são conhecidas, o que confere ao baru um grande potencial, inclusive no mercado nacional”, diz ela. 

Ainda, Pavan é certeiro ao dizer que vê no baru uma forma de unir empresas e sustentabilidade: “não tenha dúvida, o slogan do baru é: compre baru que você vai manter uma árvore em pé”. 

Cerrado ameaçado

O potencial do Cerrado para a bioeconomia depende da conservação do bioma. No entanto, dados de monitoramento mostram um cenário preocupante.  “No Cerrado, onde a proteção ambiental é mais frágil que a da Amazônia, a tendência de desmatamento vai no sentido oposto ao do bioma vizinho, com uma situação crítica que se mantém ao longo de 2023”, aponta Bianca Nakamato, do WWF-Brasil. 

Nos primeiros sete meses do ano, de acordo com dados do INPE, o bioma teve um aumento de 21,7% nos alertas de desmatamento em comparação ao mesmo período de 2022, passando de 4.123 km² para 5.019 km². 

A cifra é a maior da série histórica do INPE para o Cerrado, iniciada em 2019. Além do desmate, o bioma manteve altos números de queimadas no mesmo período, com mais de 10.000 focos de calor.

Nos últimos anos, o Cerrado foi o palco da expansão do agronegócio. Segundo dados do MapBiomas, a área de agricultura cresceu 460% nos últimos 36 anos e já ocupa uma extensão de terras maior que o estado do Paraná. 

De acordo com o levantamento realizado pelo SAD Cerrado, a devastação tem sido caracterizada por áreas desmatadas rapidamente dentro de terrenos privados. Grandes propriedades concentraram 48% (ou 193 mil hectares) do desmatamento ocorrido dentro de áreas particulares no primeiro semestre de 2023. 

Em meio à devastação, a biodiversidade precisa de incentivos para prosperar. Para Nakamato, do WWF-Brasil, o potencial dos recursos naturais do Cerrado não é completamente aproveitado: “o bioma fornece inúmeros produtos da sociobiodiversidade que podem ser considerados superfoods, sendo extremamente nutritivos e benéficos para a saúde”. Alguns deles são o pequi, farinhas sem glúten a partir de jatobá, buriti e babaçu, e óleos como o de babaçu para cosméticos e alimentação. “Estes são apenas alguns exemplos. As possibilidades de desenvolvimento de uma bioeconomia consolidada e forte no Brasil são inúmeras”, concluiu. 

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Samantha Prado
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Samantha é caiçara, jornalista e colaboradora freelancer.
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